Dos Idos de 73...

Alôs a todos!!!

 

Uma banda de rock, uma banda de blues e um DJ bem brazuca!!

Quarta, dia 6 de agosto, na Livraria da Esquina, vai rolar a festa Dos Idos de 73..., comemorando o aniversário do músico e produtor cearense Marcos Maia, do Coletivo Supernova.

Será uma festa de bons papos e boa música.

Começa 21h com o DJ, depois entram as bandas e o DJ volta pra fechar.

Pra ver como chegar, acesse o site da livraria: www.livrariadaesquina.com.br

Esperamos todos por lá!!!

Um abraço

 

Coletivo Supernova

 

Dos idos de 73...

Aniversário do MM na Livraria da Esquina,

>Unit (rock) - www.myspace.com/unitce

>Felipe Cazaux & Dupla K (blues) - www.felipecazaux.com

>Dj Merije (coletivo universal)- www.myspace.com/coletivouniversal

 

Rua do Bosque, 1254, Barra Funda

33923089

21h

Porta: r$ dez

Lista: r$ oito (coletivosupernova@yahoo.com.br)

Unit e O Sonso na Livraria Da Esquina

Alôs a todos!!

 

Mais uma vez boa música no palco da Livraria da Esquina.

 

Dessa vez duas bandas da mais nova geração da música alternativa cearense, ambas residentes atualmente em São Paulo.

 

O Unit vem com um som denso e mostrará seu repertório de música e poesia. A banda, que está aparecendo pouco no cenário local devido a outros trabalhos de seus integrantes (Carlos Eduardo Gadelha e Rafael Haluli são do Jardim das Horas e Marcos Maia faz parte, dentre outras, do Coletivo Universal e do 4º Elemento), prepara novas músicas e deve lançar brevemente seu primeiro cd, ainda sem data marcada.

 

O Sonso está concluindo a gravação de seu primeiro cd, num registro de alguns anos da banda, entre Fortaleza e São Paulo. As guitarras foram gravadas por Rodrigo Gondim, guitarrista cearense que nos deixou precocemente semanas atrás... Esse show promete ser a volta da banda depois do baque... Muita música e muita poesia com uma pegada forte e segura de Daniel Groove, o vocalista e compositor da banda.

 

Aguardamos todos por lá pra mais uma festa de boa música.

 

 

Unit e O Sonso

na Livraria da Esquina

Quinta, 10 de julho de 2008

22h

R$ 10,00

Rua do Bosque, 1254, Barra Funda

Informações: 33923089

www.livrariadaesquina.com.br

 

MANIFESTO

MANIFESTO DA CONFRARIA DOS CANALHAS

 

 

A pergunta “Quem sou eu?” tem que ser respondida. E a reposta tem que ser solta e ao mesmo tempo sistematizada. A resposta está na evolução diária da comédia (é que eu penso muito). O importante é que essa resposta anseia por perguntas.

Confraria, s. f. Irmandade; associação para fins religiosos; conjunto das pessoas da mesma categoria ou profissão.

Canalha. s. f.  Gente vil; adj. 2 gên. E s 2 gên. Diz-se de, ou indivíduo sem pudor; infame; velhaco.

( Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa,11ª edição.9ª tiragem)

Uma vez eu li num livro do Gabeira: “Não queremos uma sociedade onde a garantia de não morrer de fome se paga com a ameaça de morrer de tédio”(Manifesto do Movimento Estudantil de Zurique), mas onde eu vivo não morrer de fome basta. E o tédio, escrevendo, neutralizo. Neutro. Escrevendo comigo na mesa do bar.

Bebendo um gole de cerveja lembro de Mário Faustino e no repetir para melhorar e criar para renovar. Mas alguém me interrompe.

- Ó a dispersão, Confrade! É a sua vez de ler.

Não minto

Só escrevo

O que sinto

E permito

Somente palavras

Que me cabem

Ao ouvido

O resto

Metaforizo

 

Confrade Canalha

 

 

PS: Confrade Canalha são os Confrades Barbosa, Cruz, Costa, Damasceno, Farias, Lima, Maia, Monte, Nogueira, Ribeiro e Saraiva.

Maria das Graças balança a rede do de um ano, que grita e esperneia. Balança tão alto, impaciente, que o armador enferrujado, a essa altura, já não range mais. Tem o rosto redondo suado, o vestido cheirando a gordura e o hálito de cebola da sopa da janta às seis horas. Aos nossos olhos Maria tem 54 anos, mas no fundo da mente, às vezes, lembra de sua idade e chora. “Chora, Maria, pode chorar que a tua vida é sólida como uma rocha sob o sol no meio do deserto. Chora, pois as manchas impregnadas nos teus joelhos causadas pelos genuflexórios nunca desaparecerão; pois o teu companheiro de pão com café todas as manhãs já não te achas mais bela. Chora, que teus filhos, um já com pêlos no rosto, perdido numa tribo qualquer, tem vergonha de ti.” Mesmo assim, ela não consegue tirar do peito a triste recordação de seu primeiro, ainda recém-nascido, no berço. Ela havia comprado veneno pros malditos ratos, mas não adiantou muito. E ela só tem 37 anos. “Mas Maria (pobre Maria) não desista de viver, isso seria burrice, afinal de contas a vida é bela como dizem os ignorantes de sofrimento, como dizem os que não têm o que dizer. Seu companheiro, a esta altura, está perto de chegar, bêbado, e encontrará, como de costume, o prato de comida em cima do fogão, o de um ano que, mesmo sem sono, de tão tonto, adormece na rede amarelada, e a de dez anos sentada na calçada. Mas não encontrará Maria, pois esta está na vizinha assistindo a novela que quando termina lamenta-se da vida como todos os dias com a amiga e volta pra casa. Mas hoje, ao voltar, viu que finalmente sua vida mudaria: o de um ano jazia na rede avermelhada enquanto a de dez sangrava no canto do sofá com os olhinhos abertos de pavor. Já seu companheiro sentava-se à mesa e tomava a sopa fria de cebola com as calças abertas. Maria das Graças caminha até o crucifixo acima de sua cama e agradece. Depois vai à cozinha e cata pelo chão o ainda insistente veneno para ratos. Ele agora há de fazer resultado.

 

Confrade Barbosa

O Presente Violeta

 

         Certa noite estava eu a transar com uma mulher muito bonita. Talvez a mais bonita que eu já tenha comido. E ela tinha muitas tatuagens. Eu gosto de tatuagens, mas nela o que chamava a atenção era o exagero. Um dragão verde-azulado muito raivoso cobria suas costas desde o pescoço até a bunda. Havia desenhos que eu não me lembro nos dois braços. Um leopardo em pleno salto dominava a parte interna de sua coxa parecendo querer pular vagina adentro. Eu lembro bem disso. Ela tinha a voz muito doce e aquela despreocupação atraente das mulheres que estão pecando. Ela estava pecando. E eu era o pecado. Era uma casinha humilde e onde nós estávamos havia uma cama de casal, uma porta exageradamente larga e uma janela que estava sempre aberta. Dava pra ver a rua do alto e estava chovendo fininho. Ela me cavalgava quando algum barulho lhe chamou a atenção e eu tive que sair pela janela. Fiquei na chuva, escondido atrás de alguns tijolos e um cachorro me olhava pensativo. Vi seus pais – suponho – chegarem em casa e entrarem pelo lado oposto ao lado da janela. Depois eles saíram com objetos nas mãos e gritavam, xingando a vizinha, acusando-a de macumbeira. Ela estava ao meu lado, com a sua voz muito muito doce e disse que nós já podíamos voltar. Ela era muito bonita e sua pele muito branca. Parecia um veludo vivo com aquelas pinturas a me olhar. Estávamos já novamente naquele quarto. Não sei por onde entramos. Trepamos de novo bem devagar. Depois ela se levanta e abre a exagerada porta. Estávamos agora em outra casa, muito mais luxuosa. Lembrava as casas do Rui Othake. Somente concreto, vidro e móveis de aço e couro. Havia dois homens no barzinho da casa. Eles tentaram tocá-la e eu briguei com eles. Mas eles eram três ou quatro vezes mais altos que eu. Dei muitos socos e pontapés, mas tive que fugir. Corri, mas não muito, por uma vereda estreita até a beira do mar. Parecia uma festa. Muita gente bêbada. Resolvi tomar banho numa lagoa que havia perto. Voltei pela mesma vereda. Não corria. Somente andava e olhava a paisagem, às vezes seca e retorcida, às vezes verdejante. Vi ao longe um caminhão carregado de latas de cerveja. Vinha em alta velocidade pela mesma vereda onde eu estava. Tive que subir na cerca para não ser atropelado. Eu já havia visto aquele caminhão quando estava comendo a mulher branca-bonita-tatuada. Quando o caminhão passou eu corri. Mas encontrei uma pequena raposa e tive medo. Corri para uma casa e ela tentou me pegar. Lutei um pouco com ela até que ficamos cansados. Então ela levantou-se, sorriu pra mim e me ofereceu uma violeta.

         Havia muita paz na minha cama e muita confusão na minha cabeça. Olhei para o relógio, que já marcava quinze para as oito. Levantei-me, pois estava atrasado, e entrei no banheiro para as primeiras necessidades fisiológicas de mais um dia como outro qualquer.

 

Confrade Maia

Tato

 

A mão que bate num rato

com um pau

É a mesma com que a gente se masturba

É a mesma com que a gente se empurra

A mão está lá

Usa-se pra se pentear

Pra escrever

Pra fumar

A mão está lá

Usa-se pra agarrar coisas que queremos

Dos outros

De nós mesmos

Exprime o ódio

A mão faz a dor

Leva comida pra boca

Serve pra acariciar

Serve pra acenar

Pra comunicação

Pra dizer não

Pede esmola, pede carona

A mão não tem pra onde ir

Só se for fazer as unhas

Só se for te seguir

Serve pro tato

pra ter calo

Tem gente que pensa com a mão

Tem gente que passa uma vida em vão

Não se dão as mãos.

 

Confrade Farias

O paraíso é uma vertigem

Tanto ar que falta

Um pós-medo, um gozo

Ao paraíso não encontramos

Atingimos

Não pergunte a direção

Tem tanto ar que nos falta

O paraíso é tão frágil como uma ilusão

Uma doce canção

Um biscoito de chocolate

Um filme besta na sessão da tarde

Uma verdade, algumas mentiras

Algumas meninas

Somente você no meu coração

Meus irmãos

Pedaços do paraíso destruído

Tem tanto que nos falta

Que só o ar não basta.

 

Confrade Farias

No primeiro bilhete que escrevi,

traduzi as considerações

e a transformação após

afago do meu estado de quimera.

O subseqüente,

tentei minimizar o espaço-tempo,

impasses resolúveis

e versos que incitam magia sexual.

Não escrevi o terceiro,

expressei pela face:

extravasar o desejo nu, a cada gota pingada do poro.

Olhos provocando fogo.

Se fosse considerar,

no quarto, seria a cama.

 

Confrade Monte

O vidro da janela se move.

Ele veste mira e enquadra

a paisagem.

 

Me chama!

 

Ao tocá-lo, tem sensação

de papel. (minha nova paixão)

 

Rabisco, multiplico,

grito todos os

tatzos, cazzos, mortes e gozos.

 

De mim um gesto,

um sonho de eternidade.

 

Confrade Damasceno

Um cachorro bêbado

cruzando o asfalto

esperando a morte

atropelamento.

Ele olhava assustado

para quem passava

e subia a calçada

e fuçava num canto.

E tornava a descer

pro asfalto quente

já frio talvez

era noite alta.

O cachorro sofria

a morte em seu olho

que chorava triste.

 

Fazendo a paisagem

o cachorro bêbado

que cambaleava.

 

Confrade Maia

 

(Na época essa poesia era sem título; hoje se chama Perspectiva)

Tema: O assassinato do Confrade Lima

Autor: Confrade Barbosa

Sem título.

 

Acordo sem pensar em nada. Não tenho mesmo o que pensar nem muito menos o que esquecer. Seguirei apenas o meu instinto feminino. Abro a janela e esse dia nublado, calmo, pretensioso, me faz ficar ansiosa. Lá embaixo, pessoas desviam de poças d’água. Talvez aquele cara ajude a velhinha a atravessar a rua, talvez ela esteja indo matar alguém. Isso não me surpreenderia. Agora, tudo faz sentido. Tomo um banho. Ao lado, meu reflexo. Estava exageradamente sensual. Minhas coxas, costas... Roxo. Olho roxo. Brilhante e ofensivo. Manchas escuras, perdidas no meu corpo. Mas eu as desprezo. Esse espelho nunca havia sido tão sincero. Me visto pensando em sair pra comprar uma roupa. Um vestido curto e branco. Ele saiu pra trabalhar mais cedo com a cabeça cheia de merda e o corpo em silêncio, mecânico. Parecia que sabia o que eu sonhava. Ponho um óculos, tranco a porta e desço... pela escada. Evito pensar em tudo, mas não consigo. Ele quis aquilo realmente? Claro que quis. E eu também. Agora eu posso me ver, sem nenhuma venda nos olhos. Desço a escada infinita correndo e não consigo parar de rir. Ele nunca fez isso antes e eu não poderia ter desejo melhor. Eu já não suportava mais sua indiferença delicada, a minha vida contida na sua. Sem lógica. Talvez eu esteja amando-o agora por isso. O bastante para lhe fazer uma surpresa.

Encontro o vestido. Perfeito. Saio com ele pela rua, sem destino. Uma alegria incompreensível me possuindo. E as pessoas me olham e ele me olha. Ele, o desconhecido, ali parado, encostado no carro. Sem nenhuma expressão no rosto, apenas me olha. Chego perto e o beijo. Ele morreria por mim agora e eu não ligaria. Abre a porta do carro pra eu entrar. Foi uma longa tarde. Volto pra casa. Noite fria e comprometedora, mas não pra mim. As ruas estão vazias e o prédio com um clima inexplicavelmente suspeito. Eu, apenas espero. Como alguma coisa, fumo um cigarro, ligo pra uma amiga. Novamente o espelho. Agora ele me diz que minha calma o irrita profundamente. E talvez eu não queira estar calma, e as horas passam rápido, como se fossem cúmplices.

São 11:34. Sim, lá está ele, agora inofensivo e viril a estacionar o carro. Vou até o quarto, até o fundo da gaveta onde está a surpresa. Chamo o elevador. Entro e espero ele descer. Aqui não tem espelho, que pena... Os números diminuem, impassíveis. Estou ansiosa e calma. A porta se abre e sinto seu cheiro. Ele me olha com aquele olhar medíocre de pessoa assustada. Eu sorrio pra ele. Arma em punho, imponente. “Olá, meu bem.” Eu penso e o mato.

Tema: O aborto

Autor: Confrade Nogueira

Sem título

 

Desconfiança... naquele dia; nada.

Sete dias se passaram e... nada.

Perguntava-se se era possível, mas... nada.

Hoje, 8 de agosto, dia decisivo... nada.

Uma mulher me olhava sentada naquela pequena sala.

- Ai!

- Receberá o resultado em 24 horas.

Saía cabisbaixa e pensativa, não tinha coragem nem de olhar no espelho... medo!

24 horas se passaram, resolvi ligar.

- Seu nome, por favor. Positivo.

Como se o mundo caísse em minha cabeça, não sabia o que pensar!

- Falar com a empregada?

Dia seguinte às 24 horas, tudo já estava complicado mesmo, já não havia mais claridade; escuridão!

Um beco, com algumas casas no final, ia sair de minhas entranhas, pequeno, frágil... menino ou menina?

A empregada me olhava, acho que pensava:

- Bem feito!

Velha com as mãos cheias de gordura...

- É você, menina?

Olhei para o chão de barro e respondi.

- Fim!

- Venha para a cozinha.

Lavava as mãos em um tanque cheio de roupas...

- Tire a roupa!

Devagar fui tirando a calça jeans que ganhei de meu pai e as calcinhas brancas que ganhei de minha mãe.

- Afaste mais...(as pernas)

- Beba isso! Bote força quando sentir dor... Pronto!

Via aquele sangue na bacia de alumínio que colocara sob mim.

A empregada entrou e disse para eu me vestir mas eu não podia, sentia muita dor...

Respirei, olhei rapidamente para a bacia e a velha disse:

- Era um menino, mas você é muito nova, vai ter muitos filhos...

Vestia-me lentamente, paguei seus cinquenta reais e voltei ao beco; escuro, eu era carregada como uma doente.

Tema: O suicídio

Autor: Confrade Monte

Título: A carta de suicídio

 

A quem interessar possa:

 

Não quero mais esse corpo.

Cartilagem, osso.

A estrutura muscular, de vil exuberância, não suporta e não tem mais afago, é muito menor, é corruptível.

Pele e pêlos.

Busquei entre desventuras, a pele e os pêlos, pelas mulheres que arrisquei, são confusas e inconfundíveis. Elas são o motivo do mundo; o que mais procurei, também não entendi.

 

Da força da família:

 

Um ninho de importância aniversarial. Nascer, crescer... Eu agradeço, só não ensinaram a viver, tive que tentar aprender, até quando possível, lecionar.

 

Fome e sede

 

Consumidores de nós mesmos. Consumidores de crenças, costumes... E o consumo da cultura.

Não quero mais olhar minhas mãos e pés.

Já escolheram os trabalhos que a minha mão tem que realizar, e os caminhos certos a seguir. O conceito de valores de vocês não serve pra mim.

 

O calor e o frio

 

          O banho quente, ilusoriamente, lava a alma; quando enxugo, enxergo com mais discernimento as lamúrias dentro de mim.

 

O calor e o frio

 

O ardor da vida, a chama que clama pela justiça de sobrepor a mim mesmo e meus ideais é mais dolorido que meu corpo nu e cru, frio quando eu me deitar. Adeus.

Tema: O encontro com Deus

Autor: Confrade Damasceno

Título: Uma longa estória de amor

 

Quando O vi pela primeira vez?

Talvez ao nascer tenha sido o primeiro encontro.

Basear-me nas infindáveis tentativas de denominá-lo ou compreendê-lo seria perder grande parte da importância deste encontro.

“Foi ao inalar.”; “ao ganhar o viver”; “ao sentir pela primeira vez.”

Talvez jamais O tenha encontrado, por não ter momento havido sem Ele. O que me tornaria mais difícil a réplica.

Ou, conscientizar-se de minha desesperada Busca ( sim! Com letra maiúscula) do poder de amar e existir.

É verdade que Sua face se fez em mim conhecida em alguns momentos, pois, renasci um dia ao encontrar, ainda moço, o menino que havia sido. Ou, renascendo ao primeiro respirar de meu filho.

Mas, o primeiro encontro?

Algo tão imenso, sem começo, meio e fim...

Acho que só sei onde encontrá-lo!

Eu existo!

Quando encontrá-lo mesmo, serei inutopicamente* pleno. Sonhando ou morrendo novamente.

 

*Foi necessário usar de duas negações para acertar na profundidade.

Tema: A primeira comunhão na vida de uma criança

Autor: Confrade Ribeiro

Sem título

 

Vesti-me de branco. Fui pra igreja. Sentei, levantei, sentei, levantei. Entrei na fila para receber o que chamam de Corpo de Cristo; engraçado, corpo ensangüentado com gosto de macarrão cru? Vontade de cuspir. Não quero ser padre. Ficar de joelhos. Mas minha mãe tinha dito que não sujasse a roupa! Ajoelhei-me no chão sujo. Olhos fechados, não sei porque. Tempo. Sono. Acho que vou sonhar com aquela cruz grande, se ela cair pode matar gente. Seria o Jesus assassino? Abro os olhos. Segundo minha mãe acabei de receber Deus. O Deus macarrão. Saímos da igreja e fomos para casa comer o bolo que minha mãe fez. Porque minha mãe não chamou a velhinha pobre na igreja também para comer o bolo, se o padre falou que a gente tem que dividir com os pobres? Fui cortar o bolo e sem querer cortei meu dedo. Coloquei o dedo na boca para sentir o gosto. Sangue, igreja, Cristo, cruz, macarrão, velha, morte e bolo de chocolate.

Tema: Uma relação homossexual

Autor: Confrade Maia

Título: Independência

 

“Pai! Pai! Acende a luz! Pai! Acende a luz!”

“Calma! Calma!”

“Ele vai me agarrar! Me solta! Me solta!”

“Calma!!”

Era dia sete de setembro. Um calor infernal. O pátio do colégio fervilhava de crianças idiotas. E eu era uma delas. Não sei se mais ou menos idiota que as demais. Depois das orações de praxe e com as quais eu já estava acostumado chegou a hora do Hino Nacional. Eu realmente detestava (hoje nem tanto) cantar o Hino Nacional. Apesar de minha pouca idade eu já sentia uma certa submissão em todas aquelas crianças, umas maiores outras menores, se esgoelando em frente ao mastro da bandeira no dia da Independência, sem saber direito o que era Independência. Cada uma querendo mostrar-se mais para os padres e professores, com cara de imbecis, satisfeitos ao ver aqueles patriotinhas que sabiam a ponta do Hino na ponta da língua. Eu não era diferente dos outros. Quase um militar (toc toc toc). Eram como vozes infernais aquelas crianças uníssonas cantando a profusão de “ésses” que tem nosso hino.

“...teus risonhos lindos campos têm mais flores...”

Era um “sssss” realmente desagradável.

E foi no meio de um desses “sssss” que ele olhou pra mim.

E o Hino parou de tocar. Aliás, não parou. Eu via a boca das pessoas se mexendo mas não havia som.

E ele sorriu. Eu sorri também. Não foi um sorriso de amigo. Foi um sorriso de amante.

Fiquei com muito medo daquilo que senti. Lembrei-me de minha avó.

“Já está um rapazinho. Cadê a namorada?”

Suei frio e copiosamente.

Saí da fila onde estava e fui ao banheiro.

“Ó pátria amada idolatrada! Salve! Salve!”

Baixei a cabeça e lavei o rosto. Passei muito tempo de cabeça baixa. Meu pensamento não se ordenava. Levantei a cabeça e ele estava lá. Bem atrás de mim, encostado a um dos boxes do banheiro, sorridente.

“...mas se ergues da justiça a clava forte...”

Não tive mais medo. Ele me abraçou. E eu não senti dor alguma.

“...verás que um filho teu não foge à luta...”

Saí do banheiro instantes depois. Confuso? Satisfeito? Arrependido? Livre? Não sei.

“...pátria amada, Brasil.”

Terceira Reunião da Confraria dos Canalhas

Terceira Reunião da Confraria dos Canalhas

Dia vinte e quatro de junho de mil novecentos e noventa e oito

 

Propôs-se, e foi aceita, uma reunião peripatética no Parque do Cocó (O Velho) a ser realizada no dia oito de julho de mil novecentos e noventa e oito, quarta-feira, às quatro horas da tarde.

 

Falou-se sobre o problema da dispersão nas reuniões e foi lançada a proposta de um intervalo reservado exclusivamente para a dispersão. Confrade Damasceno salientou a importância desse intervalo também para conversas literárias mais específicas entre os Confrades.

 

A cerveja estava congelando e o Confrade Farias afirmou que assim ela perde suas propriedades nutritivas.

 

Confrade Nogueira leu um escrito sobre as cinzas.

 

Confrade Damasceno lançou a proposta de que as nossas reuniões também se dirijam ao caminho da dissecação da poesia e da prosa: português, pontuação, forma, estilo literário, et cetera.

 

Confrade Costa não compareceu à reunião por motivo ignorado.

 

“Eis que se fez pausa” (Confrade Lima)

 

Os temas da reunião passada foram todos lidos, com exceção do Confrade Costa, que não se encontrava presente. O saldo foi muito positivo, pois consistiu em verdadeiro exercício literário.

 

Foi conferida a primeira Homenagem da Confraria dos Canalhas. A agraciada foi a cozinheira do Latte Machiatto, Dona Vera. Houve leitura de alguns de seus poemas. Serão conferidas, de vez em quando, homenagens a pessoas que a Confraria reconhecer como colaboradoras da arte. Confrade Saraiva pronunciou pequeno porém entusiasmado discurso.

 

Foi feito um sorteio para os temas a serem feitos na próxima reunião. Cada Confrade propôs um tema em cédula secreta, que foi posteriormente sorteado. Os temas continuam sigilosos até a data da próxima reunião.

 

Confrade Ribeiro propôs a idéia de se fazerem contos ou pomas rápidos durante a reunião. Seria uma prova relâmpago.

 

Confrade Lima propôs a idéia de se trazerem escritos que consideramos “menores”. Seria o “Dia da Merda”.

Resto

 

Banhei-me na lama de um ex-rio

Coletei provas de minha existência

Descobri que tudo na vida

Não tem peso nem consistência.

 

Peido, fedo e cago

Pro que fiz e deixei de fazer

E o que restou em forma de catarro

Escrevi pra você entender.

 

Confrade Saraiva

 

(essa virou música da banda Groove, gravada no álbum "Tá na Mão!", de 1999)

         Não há nada aqui, só essa inquietação, esse silêncio incômodo. Mas vai passar, eu sei. Deitado assim, imóvel, penso em quando a música chegar e me encher de vazio, de não-pensar. Porque pensar dói, e cansa e não leva a lugar algum. As cabeças que pensam são as que mais pesam, e eu não quero carregar isso sobre meus ombros. Só queria ficar aqui, que tivessem me esquecido. Escuro (apague as luzes). O telefone toca por muito tempo, muito. Pára e recomeça várias vezes até eu me levantar e atender. Voz do outro lado: “You lose, meu chapa. Lágrimas não cairão, só o tempo fechando rápido”. Desligo. Uma situação estranha, alguns chamam de “dia difícil”. Há pessoas que eu gostaria de matar, uns imbecis. (penso em agulhas sob as unhas, alicate espremendo o lóbulo da orelha, essas coisas). Vai passar. O cheiro agradável que fica nos dedos após quebrar os galhinhos e separá-los junto com as sementes vem à minha memória, passa por minhas narinas. E a música retorna ao ambiente. Adoro isso: ambiência, profundidade, coisas ao redor, mais à frente ou mais ao fundo. A inquietação vai embora. Não é preciso pensar, eles se vão também. Sinto a torneira aberta, tudo escoando como água. Areia entre os dedos. Deserto. Ele entra pela sala e caminha rápido em minha direção. Um empurrão forte no meu peito. Mas a queda é lenta, lenta. Valsa. Gesticulando muito e gritando, nenhuma palavra sua chega aos meus ouvidos. E girava. Como num aparelho de som com o volume baixo, aumenta-se bruscamente: não sei o quê, não sei o quê, tua mulher. Então eu lembro. Fecho os olhos. Vem aqui, não sei ao certo. Todos os dias eu lembro. Coceira na perna, mas não me movo. Matar alguém assim, com as próprias mãos, bater bater bater. São duas e vinte, já é tarde. Sangue nas mãos; ódio, muito ódio. Estar só. Chutar muitas vezes o corpo imóvel e frio não vai mudar nada. Um chute no estômago, outro na boca. Tiro. Fecha o foco, sufocando meu pensamento. Inquietação, o peso. Não quero pensar. Sinto o sangue pulsando lento e quente, essa coisa nas minhas veias sujas.

 

Confrade Lima

         Estar só. E só. Não, tem muito mais. Tem mais coisa sozinha no mundo, na minha cara (olhos sempre distantes) pregada na parede. “Só”. O “Só” que me faz companhia, que me faz ver minha verdadeira história de criança (eterna maturidade infantil), que me faz chorar, que fuma cigarro comigo, que me diz coisas insuportáveis ao meu respeito, que insiste em me dizer no ouvido que é minha alma gêmea e que nunca vai sair do canto do quarto ou da calçada. Insistência doentia...

                            cruel...

                                      doce.

         Agora me persegue até quando meus olhos brilham.

         “Não sou sua e não quero sua paz. Você sabe disso. Sabe que quando vem me abraçar com seus braços e hálito quentes me fazendo suar, eu fujo. Pra esquecer... Quase nunca chego em lugar seguro. Você sempre acaba passando por debaixo da porta, sempre senta no meio. Ciúmes, talvez. Talvez um dia eu quisesse sentir sua falta. Mas isso seria impossível pois você já me convenceu do seu amor. Talvez eu me acostume com isso um dia e hoje, especificamente hoje, eu quero sentir suas mãos nas minhas costas, o peso de sua tão concreta existência. Mas em silêncio, eu não mereço ouvir sobre mim hoje. O rosto pintado ao lado da cama, o pôster na parede, as roupas no cabide, o chaveiro balançando na porta, a outra cadeira vazia. São seus rostos, suas formas. Conheço cada centímetro delas de tanto olhá-las quando você está por perto. Quando adormeço (esperado instante do dia) sinto o frio da sua ausência. Escuto outras vozes, vejo outras caras, derramo outras lágrimas. Poucas e vulneráveis horas... e ao acordar, os barulhos, a claridade, as vozes reais (quase gritos pelo corredor), fazem você surgir. E então eu desperto com o morno bom dia que sai dos seus lábios.

 

Confrade Barbosa

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