Resto
Banhei-me na lama de um ex-rio
Coletei provas de minha existência
Descobri que tudo na vida
Não tem peso nem consistência.
Peido, fedo e cago
Pro que fiz e deixei de fazer
E o que restou em forma de catarro
Escrevi pra você entender.
Confrade Saraiva
(essa virou música da banda Groove, gravada no álbum "Tá na Mão!", de 1999)
Não há nada aqui, só essa inquietação, esse silêncio incômodo. Mas vai passar, eu sei. Deitado assim, imóvel, penso em quando a música chegar e me encher de vazio, de não-pensar. Porque pensar dói, e cansa e não leva a lugar algum. As cabeças que pensam são as que mais pesam, e eu não quero carregar isso sobre meus ombros. Só queria ficar aqui, que tivessem me esquecido. Escuro (apague as luzes). O telefone toca por muito tempo, muito. Pára e recomeça várias vezes até eu me levantar e atender. Voz do outro lado: “You lose, meu chapa. Lágrimas não cairão, só o tempo fechando rápido”. Desligo. Uma situação estranha, alguns chamam de “dia difícil”. Há pessoas que eu gostaria de matar, uns imbecis. (penso em agulhas sob as unhas, alicate espremendo o lóbulo da orelha, essas coisas). Vai passar. O cheiro agradável que fica nos dedos após quebrar os galhinhos e separá-los junto com as sementes vem à minha memória, passa por minhas narinas. E a música retorna ao ambiente. Adoro isso: ambiência, profundidade, coisas ao redor, mais à frente ou mais ao fundo. A inquietação vai embora. Não é preciso pensar, eles se vão também. Sinto a torneira aberta, tudo escoando como água. Areia entre os dedos. Deserto. Ele entra pela sala e caminha rápido em minha direção. Um empurrão forte no meu peito. Mas a queda é lenta, lenta. Valsa. Gesticulando muito e gritando, nenhuma palavra sua chega aos meus ouvidos. E girava. Como num aparelho de som com o volume baixo, aumenta-se bruscamente: não sei o quê, não sei o quê, tua mulher. Então eu lembro. Fecho os olhos. Vem aqui, não sei ao certo. Todos os dias eu lembro. Coceira na perna, mas não me movo. Matar alguém assim, com as próprias mãos, bater bater bater. São duas e vinte, já é tarde. Sangue nas mãos; ódio, muito ódio. Estar só. Chutar muitas vezes o corpo imóvel e frio não vai mudar nada. Um chute no estômago, outro na boca. Tiro. Fecha o foco, sufocando meu pensamento. Inquietação, o peso. Não quero pensar. Sinto o sangue pulsando lento e quente, essa coisa nas minhas veias sujas.
Confrade Lima
Estar só. E só. Não, tem muito mais. Tem mais coisa sozinha no mundo, na minha cara (olhos sempre distantes) pregada na parede. “Só”. O “Só” que me faz companhia, que me faz ver minha verdadeira história de criança (eterna maturidade infantil), que me faz chorar, que fuma cigarro comigo, que me diz coisas insuportáveis ao meu respeito, que insiste em me dizer no ouvido que é minha alma gêmea e que nunca vai sair do canto do quarto ou da calçada. Insistência doentia...
cruel...
doce.
Agora me persegue até quando meus olhos brilham.
“Não sou sua e não quero sua paz. Você sabe disso. Sabe que quando vem me abraçar com seus braços e hálito quentes me fazendo suar, eu fujo. Pra esquecer... Quase nunca chego em lugar seguro. Você sempre acaba passando por debaixo da porta, sempre senta no meio. Ciúmes, talvez. Talvez um dia eu quisesse sentir sua falta. Mas isso seria impossível pois você já me convenceu do seu amor. Talvez eu me acostume com isso um dia e hoje, especificamente hoje, eu quero sentir suas mãos nas minhas costas, o peso de sua tão concreta existência. Mas em silêncio, eu não mereço ouvir sobre mim hoje. O rosto pintado ao lado da cama, o pôster na parede, as roupas no cabide, o chaveiro balançando na porta, a outra cadeira vazia. São seus rostos, suas formas. Conheço cada centímetro delas de tanto olhá-las quando você está por perto. Quando adormeço (esperado instante do dia) sinto o frio da sua ausência. Escuto outras vozes, vejo outras caras, derramo outras lágrimas. Poucas e vulneráveis horas... e ao acordar, os barulhos, a claridade, as vozes reais (quase gritos pelo corredor), fazem você surgir. E então eu desperto com o morno bom dia que sai dos seus lábios.
Confrade Barbosa
Uma folha em branco
Uma folha em branco como quem diz: “Prepare-se”.
Vamos todos nos queimar com a ponta do cigarro?
Não, isso seria muito pequeno.
Se pelo menos ela nos fizesse explodir...
O mundo está bem debaixo do nosso comodismo
E o futuro não espera nada de nossas mãos
Que todos os dias acordam sob o travesseiro (“não nos incomode, estamos com preguiça”).
O futuro não espera nada de nossos pés
Com as unhas grandes e cheias de calos
Por andarem o dia todo...
Pela casa descalços, nem muito menos de nossos olhos
Sempre vermelhos de dor e prazer a observarem
O movimento da humanidade
Pelo outro lado daquela janela tão distante.
Mas ele espera muito de nossas bocas.
Futuro, prepare seus ouvidos.
Confrade Barbosa
Você nos deu a existência. Árdua. Serena. Nós esquecemos da sua. Por amor ao tempo, não nos deixe só. A grande curva do destino está próxima e quando lá estivermos um punhado de areia cairá sobre nossos olhos. E o sonho pegará em nossas mãos e nos levará pra cima de um palco. Nós ouviremos sem limites o som.
Pelo ódio do tempo, não nos deixe só.
Não me deixe no meio do branco.
Sem roupa e sem música.
Confrade Barbosa
Derradeira volta
Encontro numa sólida solidão
Uma mulher mastigada
a me esperar sorridente
com seus seios descobertos
escorrendo úmido e quente.
Sua ingenuidade
um dia naufragada em lágrimas
aflora ao movimento esperando da vida lhe contar
estórias, o seu rebento
De mãe de suas dores
retorna à sua infância
frouxa mas consciente.
aos risos espalhados
se aproxima lentamente.
Se pousa em meus braços
Leve e sedenta,
como manda o sacramento
e acaba por mamar do meu
peito o que tem dentro.
Essa menina-flor
que agora seguro
trêmulo e complacente
me escorre um olhar
fulguroso e reluzente.
E sem perceber
que no ventre pesado
lha tenho ao momento
me vejo a cantar
cantigas de acalento.
A afluente partida
de minha dália
foi, assim, tão de repente!
simples truque de uma
lembrança clemente.
Encontro-me murcho
assentando o lugar – dela de sempre
sussurrando senil lamento
com os peitos de fora
e a menina aqui dentro.
Genebra, 24.6.87 Confrade Damasceno
Discurso Resignado
Parece que ainda não acabou, as noites parecem repetidas, quando lembro o tato-contato, dos meus dedos se dissipando, ficando pra trás... Falta algo ao meu redor, pra me apoiar, me encostar, me aquecer, sem me sufocar. O tempo vai passando, e o tato perdendo o contato, se dissipando, e ao contrário do que fosse imaginado, vive ainda uma aura ao redor. É como se o calor ainda fosse presente, embora a ausência seja evidente.
A partir desse dia eu imaginei que podia ir mais além, fazer mais do que estar conformado.
De fato, estava resignado.
Passei um minuto, talvez filosofando sobre o quanto me prendi a outros tipos de valores e esqueci de coisas primordiais, como as minhas necessidades pessoais, ou quem sabe, só tentando olhar para o que eu representava naquele momento.
Resolvi passar, pra fora de mim, aquilo que eu achava que tinha sua importância pra ser lembrado, pra ficar claro o que eu ainda sentia. Não sei bem, porque eu achasse ser uma forma de auto-afirmação e me forçar a reagir. Até que de repente estou aqui, tentando esclarecer, jorrar de mim pra fora a importância que a lembrança tem.
A minha voz é a expressão do meu relato, de verdade autenticada, e além disso quero dizer mais, desejo o teu tato às vias de fato.
Confrade Monte
Eu não temo mais ninguém,
Eu não alegro mais ninguém,
Nem confio a alguém
O meu sorriso ou meu horror,
Eu não conheço mais ninguém
Também não quero conhecer,
Eu nem preciso estar aqui
E eu só queria me ouvir
E eu só queria me ouvir.
O que a minha mente mente
Eu não queria acreditar
Nem enxergar em mim
O que todo mundo possa pensar
Eu não quero ser diferente
Do espelho a minha frente
Nem consigo imaginar
Muito além do meu olhar.
Já parei de tentar fingir
Que aprendi a aceitar
Que o que querem que eu seja
Eu não sei e nem eu sou,
Eu não confio em ninguém
Ninguém, que eu não seja
Nem queria padecer
Sem saber o que sou.
Confrade Monte
E quando chega...
E a saudade quando passa dos poros,
deixa em absoluto e à mostra o desejo nu,
faz carne, corpo e alma
faz da pele o sentido, o gosto
transforma os olhos e a respiração
E quando o sexo...
Rasgou o papel e não percebeu o quanto precisava daquela poesia, a versão
íntima das suas pretensões para aquela noite.
Eva discou ainda duvidosa, procurou companhia, pensou em bebidas,
boêmia, mas alguma coisa lhe sobrava.
O sexo...
A madrugada!
A madrugada é o conjunto do que sobra da noite. Tudo que restava em sua cabeça, tudo que faltava em seu coração, lembranças e fantasias transformadas carinhosamente em toque entre as pernas. Eva se amou e dormiu.
O dia chega...
Oito e quinze.
Nove e meia ninguém ligou. Quem sabe à tarde, quem sabe um dia.
Confrade Monte/Confrade Saraiva
No osso!
Eu tô no osso
Idéias camufladas e tecidos
Eu tô disposto
Do it yourself
Pessoas nadam sobre o lixo, sob as sombras
eu tô no osso ninguém repara e segue
Me sinto exposto
Mom, i don’t wanna die
Pessoas falam sobre o casto, sobre as sobras
Pessoas mostram o que pensam, de quem gostam
Eu tô no osso, eu tô sem graça
trancado no armário dos brinquedos
Eu sinto nojo
Pessoas camufladas filmes de cowboy
Pessoas gritam
O tempo todo, a vida toda
Pessoas se levantam dia após dia depois se deitam
Eu tô disposto
Eu quero passar
Confrade Saraiva
O que fazer quando a caneta não é suficiente para materializar a confusão de neurônios e fios coloridos que passam no meu cérebro e pretendem chegar ao meu pensar material? A caneta se torna meu corpo que indaga as mais intrigantes dúvidas que ainda não inventaram resoluções. Quem sou eu? Quero gritar pra mim. Sentir que posso movimentar um corpo cansado de receber imagens distorcidas que passam ao meu redor numa velocidade incrivelmente rápida. Estou sendo levado enquanto meu corpo fica inerte no mesmo lugar. Os castiçais sem velas, as velas como luz, as velas pretas e o círculo delas. Encontre a maneira correta de usar suas velas e defenda até sua morte. Só não acenda suas velas sob a luz do sol, não gaste o oxigênio ao seu redor com pleonasmos. Meu Deus, eles acordam com o cabelo disforme e hálito de ontem; é assim que funciona a minha espécie, que se acha superior a vida de um sanatório com suas leis e brincadeiras infantis. Quem dita essa merda?? Salve alívio.
Confrade Ribeiro
Cores
Comecei a esfregar minhas unhas
e delas saiu uma areia azul.
Comecei a ranger os meus dentes
e deles jorrou uma cascata lilás.
Comecei a puxar meus cabelos
e meus cabelos eram fachos de luz multicolorida.
Gritei.
Não sabia das minhas cores.
Das cores da pele e da alma
de cada um.
Chorei.
de alegria e tristeza
pois ao arrancar meu coração
Havia um buraco.
Negro.
Confrade Maia
Segunda Renião da Confraria dos Canalhas
Segunda Reunião da Confraria dos Canalhas
Dia dez de junho de mil novecentos e noventa e oito
Jogo do Brasil contra a Escócia. Dois gols contra um para a Seleção Brasileira. Gols de César Sampaio e contra de um certo jogador da Escócia através de Cafú.
“Jogou bem pra caralho!!”
Confrade Saraiva propõe lançar o MSTT (Movimento sem Tédio e sem Trabalho)
Confrade Cruz não se encontrava presente por motivo de doença (olho inchado)
Entrada oficial dos Confrades Barbosa, Ribeiro e Nogueira, a saber Daniely, Germano e Daniele.
Infelizmente não existe feminino na Confraria dos Canalhas, não por machismo, mas por comodidade e beleza, pois o feminino de confrade é confreira, que soa meio escroto.
Confrade Saraiva propôs uma nova forma de abordagem na reunião do conjunto. Ele propôs um exercício literário para cada um, de acordo com a possível deficiência – na concepção do Confrade Saraiva – da cada Confrade.
Os temas propostos pelo Confrade Saraiva foram:
Confrade Lima: O estupro.
Confrade Barbosa: O assassinato do Confrade Lima.
Confrade Ribeiro: A primeira comunhão na vida de uma criança.
Confrade Farias: O incesto.
Confrade Damasceno: O encontro com Deus.
Confrade Nogueira: O aborto.
Confrade Maia: Uma relação homossexual.
Confrade Monte: O suicídio.
Confrade Costa: Na sala de espera.
Confrade Cruz: O momento da morte.
Confrade Saraiva recitou a letra de “Resto”, de sua própria autoria, que tem claras influências de Augusto dos Anjos.
Confrade Maia foi eleito o “Bebim” da hora.
Confrade Barbosa sacramentou a sua entrada para a Confraria dos Canalhas com uma poesia sobre o Sol (?????)
Confrade Maia, segundo Confrade Saraiva, acaba de exibir em sua tela: “seu computador já pode ser desligado com segurança”. Mal sabem eles que o insubstituível e por demais modesto Confrade Maia é o autor dessa vanguardista ata.
Primeira Reunião da Confraria dos Canalhas
Esta foi a ata da primeira reunião da Confraria dos Canalhas, realizada há quase 10 anos.
Pense numa farra grande!!
Primeira Reunião da Confraria dos Canalhas
Dia vinte e sete de abril de mil novecentos e noventa e oito
Conversa informal sobre temas literários, de terceiros ou não, influenciados ou não, por substâncias ativadoras da criatividade.
Livre interpretação de qualquer coisa escrita, pois a prosa e principalmente a poesia dão vazão a vários tipos de análise.
A sensibilidade é inerente ao nosso grupo e a interpretação é algo inacabado e apto a quaisquer mudanças. O choque das idéias é evidente.
Confrade Damasceno propôs um nome diferente, a saber: “Ensimesmando-nos”
A liberdade de expressão foi assumida ao extremo. Quem quiser se expressar será ouvido; quem não quiser será respeitado.
A morte??
Cogitou-se a idéia de pintura juntamente com a literatura em prol de uma confraternização geral, embora Confrade Saraiva tenha, digamos assim, se rebelado. Mas ao mesmo tempo chegou-se a uma conclusão de que qualquer tipo de manifestação será aceita.
Talvez não fique bem a presença de preâmbulos antes das leituras.
Sugestão de E-mail: www.@.confradcanalha.com.br
Os membros da Confraria dos Canalhas serão identificados através de seus sobrenomes, segundo deliberação do conjunto.
Daniel - Confrade Saraiva
Gesner - Confrade Farias
Marcos - Confrade Maia
Hobson - Confrade Cruz
Davi - Confrade Costa
Saulo - Confrade Monte
Carlos - Confrade Lima
Janson - Confrade Damasceno
Confrade Lima: Não há nada aqui, só essa inquietação.
Confrade Saraiva: Então fecha!!
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Meu Perfil BRASIL , Nordeste , FORTALEZA , PRAIA DE IRACEMA , Homem , de 26 a 35 anos , Portuguese , Urdu , Arte e cultura , Arte e cultura , literatura MSN - |
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